Em 1979, muito pouco se falava em rap no mercado norte-americano. Apostando no gênero, a Mercury Records assinou o primeiro artista, e em 1980 lançou o primeiro álbum de rap - e em minha modesta opinião, o melhor.
A tipografia impact caixa alta chama menos atenção que o look do dia escolhido por Kurtis Blow para a capa do disco. É mais um caso em que só de olhar a capa já podemos afirmar categoricamente que o som será fantástico, principalmente se nos atentarmos para o detalhe de que além de uma medalha e de uma âncora, esse príncipe de ébano (que na época tinha 20 anos) está ostentando uma corrente com pingente de PEIXE.
Quem conhece bem o gênero está familiarizado com os famosos samples. É a arte de recortar um trecho de uma música (seja uma batida, uma melodia, um vocal, enfim, qualquer coisa) e utilizar como base para a composição de um rap. Do final da década de 90 pra cá, praticamente tudo que é rap utiliza pelo menos um sample, que inclusive é, na maioria das vezes, a parte mais interessante da música. Artistas de rap como Dr. Dre, Tupac e Ice Cube usaram e abusaram da técnica para pegar emprestado (e não devolver) linhas melódicas e rítmicas de artistas como Stevie Wonder, Isaac Hayes, Isley Brothers e outros gigantes do groove. Mas lá atrás, em 1980, os produtores Robert Ford e J.B. Moore escolheram composições originais para as músicas de Kurtis Blow. Não tem sample de porra nenhuma, é tudo inédito.
A faixa de abertura, Rappin Blow pt. 2, tem esse nome por ser a "continuação" do primeiro single lançado pela gravadora. Um groove poderoso, com clima de discoteca, baile black e sacanagem. Um solo de piano, um coro de mucho macho e muito hey ho. O som corre bem, mas é completamente eclipsado quando, ao final, Kurtis Blow emenda:
"clap your hands everybody, if you got what it takes / 'cause I'm Kurtis Blow and I want you to know that these are the breaks".
Após essa chamada, começa o delicioso riff de guitarra feito pelo J.B. Moore. The Breaks é antológica. Um groove perfeito embala as rimas muito bem cadenciadas, que brincam com a polissemia da palavra break. Importante lembrar que não tem nada de gangueragem nem de putaria nas letras desse álbum. Como diria o brasileiríssimo Thaíde, o rap era bem mais puro. Lá pro final do som tem solo de piano, tem solo de agogô, uma batucada da porra.
Way Out West é minha música preferida do disco. O riff é hipnótico, viciante. Me lembra uma coisa meio latina, mais pelo timbre do que pela pegada bem característica da Disco Music. O grande charme da música para mim são as mudanças de tom, muito bem exploradas. É um som cheio de camadas, muito bem produzido. São quase oito minutos de música, mas a sensação que fica no final é que dava para ter feito dez vezes mais que o som continuaria agradável.
Throughout Your Years não fica atrás. É uma música sensacional, que cativa nos primeiros segundos. O groove é mais contido e a melodia bem alegre, daquelas pra dançar bebaço no fim do churrasco. A letra é bem motivacional.
Hard Times se apoia mais no groove, com destaque para o solo de percussão, no qual o Kurtis Blow dá uma de Compadre Washington e lança uns vocais junto da batucada. All I Want in This World é romântica, bem pueril. Parece coisa que o Michael Jackson cantaria em um dos primeiros álbuns dele. Os vocais aveludados fazem com que essa música transite entre o bonitinho e o cafajeste.
Takin' Care of Business começa com um riff de guitarra a la Lynyrd Skynyrd, um vocal meio country e uma batida bem peão de rodeio. Kurtis Blow já misturava rap e rock & roll antes do Run DMC, antes de todo mundo, com direito a solo e tudo. Solos, que no caso são uns três ou quatro nos quase seis minutos de música.
O disco Kurtis Blow, do artista Kurtis Blow, lançado no ano de 1980, sem dúvida alguma, tem muito groove.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Canibais Digitais
George me apresentou esse álbum em 2009 ou 2010, depois de uma discussão que tivemos sobre a transformação da estética punk que possibilitou o surgimento da vanguarda pós-punk. Esse assunto dá muito pano pra manga, mas pouca coisa tão boa de escutar quanto o som dos Units saiu desse miolo.
O Units é um grupo californiano formado em 1978. Apenas mais uma banda punk, como tantas outras na cena. A guinada aconteceu quando, em '79, começaram a inserir sintetizadores e suprimir os instrumentos de corda. Em 1980 lançaram seu único álbum de inéditas, Digital Stimulation, objeto de minha análise.
Tem groove aqui também. Um groove indecoroso e desajeitado, mas tem.
O riff de abertura de High Pressure Days sintetiza (literalmente) bem o que virá pela frente. Além da mistura de timbres, há uma espécie de sirene de ambulância ao fundo, muito oportuna. Vale mencionar que, diferentemente das odes ao mundo tecnológico que fazia o Kraftwerk, as letras de Digital Stimulation do início ao fim descrevem a tecnologia como ferramenta de alienação. Em High Pressure Days, a crítica recai sobre a impessoalidade das relações no cotidiano das grandes cidades.
A estrutura do som segue bem convencional, dando a impressão de uma estrutura em duas estrofes de verso e duas de refrão. Mas é bem quando se encerra o último high pressure do refrão que a coisa acontece: o andamento da música muda e uma sessão instrumental pesada de sintetizadores ataca sem dó o ouvinte. Antes da segunda parte, temos dentro desse novo andamento um pós-refrão temperado com linhas mistas de sequenciadores e teclado minimalista.
Particularmente, gosto muito do verso final - high pressure days, finding that our motions / high pressure nights, fit into a pattern.
A segunda faixa, que dá nome ao álbum, já começa na quebradeira. O ritmo da música é daqueles bem estranhos, com acelerações e pausas frequentes. Mérito do baterista.
Assim como na primeira faixa, a seção de sintetizadores é densa e impressiona. E já no final da música, um solo descontrolado surge em cima de uma base que lembra um órgão de tubos. Aproveito o momento apoteótico para comentar que a letra da música reforça a brincadeira do título do álbum, deixando quase claro de que tipo de estimulação por dedos estamos tratando.
Warm Moving Bodies começa bem bizarra. E termina do mesmo jeito, como não podia deixar de ser. A canção é uma espécie de reflexão sobre as origens biológicas dos sentidos humanos. Parece chique falando assim, mas a letra passa a sensação de que quem fez estava bem chapado. O padrão ritmíco é bem groove e acompanha uma linha de sintetizador pesada.
Go começa com uns teclados sequenciadores entrelaçados. Parece uma continuação mais alegre e menos estranha da faixa anterior. O destaque do som são os recursos interpretativos dos vocais.
Se em Warm Moving Bodies parecia que tinha maconhada envolvida na questão, em Mission é certeza. O instrumental, bem pouco contido, ajuda os vocais na teatralização da música. Tem assovio, tem apito, tem cowbell. E pra acompanhar essa trilha sonora de festa infantil uma letra que deve ter feito todo sentido pra quem compôs durante o auge da loucura canábica. O som mal acaba e já é interropido pelas imitações de guitarra nervosas do próximo som.
Cannibals é daquelas em que dois compassos bastem pro ouvinte perceber que lá vem pedrada. A linha ritmíca lembra uma evocação tribal, enquanto a melódica rasga o ouvido com um instrumento de fundo cujo timbre não permite indentificar se trata-se de apenas um ou mais sintetizadores. A música acaba com um belíssimo solo no estilo mellotron. Hoping some rare man's blood is going to give them life / this is a generation of cannibals. Palmas.
Até aqui, evitei fazer a comparação; Mas, tanto o instrumental esquisito quanto a ironia cáustica da letra, tudo em Bug Boy lembra Devo. O primeiro álbum do Devo é de '78, logo, os dois grupos são praticamente concomitantes.
Tigh Fit é uma obra de arte. A canção é instrumental, muitíssimo sofisticada. A riqueza atraente de timbres do álbum se faz presente nessa canção com a emulação de xilofones e guitarras, lembrando a levada groove do mestre Roy Ayers.
Passion or Patterns vem na sequência, sem deixar a bola cair. A bateria começa colada na faixa anterior, criando uma atmosfera para a entrada dos sintetizadores, que adotam nessa música melodias mais limpas que no restante do álbum. A letra faz crítica às relações afetivas no contexto da contemporaneidade.
A música termina em fade out, seguida pelo paredão melódico de Town By The River. Esse pequeno instrumental faz função de interlúdio. Nessa altura do álbum, os ouvidos exigem mais dos sintetizadores, e ainda que a canção explore bem o instrumento, fica uma sensação de que é apenas aquecimento para faixa final. E é bem por aí mesmo.
A útlima música, Cowboy, é a mais longa do disco. É a conclusão de tudo que foi apresentado. A primeira parte da música lembra as atmosferas de Edgar Froese, extremamente plástica, com inserções cinematográficas. Podemos ouvir ventania, passos e outros ruídos. O clima perdura até que, de forma bastante espontânea, começa a segunda parte do instrumental, que descrevo como um carrossel de sequenciadores que sustenta com maestria os solos melódicos.
E lá se foram 32 minutos primorosos. Quem quiser os arquivos, é só chamar.
O Units é um grupo californiano formado em 1978. Apenas mais uma banda punk, como tantas outras na cena. A guinada aconteceu quando, em '79, começaram a inserir sintetizadores e suprimir os instrumentos de corda. Em 1980 lançaram seu único álbum de inéditas, Digital Stimulation, objeto de minha análise.
Tem groove aqui também. Um groove indecoroso e desajeitado, mas tem.
O riff de abertura de High Pressure Days sintetiza (literalmente) bem o que virá pela frente. Além da mistura de timbres, há uma espécie de sirene de ambulância ao fundo, muito oportuna. Vale mencionar que, diferentemente das odes ao mundo tecnológico que fazia o Kraftwerk, as letras de Digital Stimulation do início ao fim descrevem a tecnologia como ferramenta de alienação. Em High Pressure Days, a crítica recai sobre a impessoalidade das relações no cotidiano das grandes cidades.
A estrutura do som segue bem convencional, dando a impressão de uma estrutura em duas estrofes de verso e duas de refrão. Mas é bem quando se encerra o último high pressure do refrão que a coisa acontece: o andamento da música muda e uma sessão instrumental pesada de sintetizadores ataca sem dó o ouvinte. Antes da segunda parte, temos dentro desse novo andamento um pós-refrão temperado com linhas mistas de sequenciadores e teclado minimalista.
Particularmente, gosto muito do verso final - high pressure days, finding that our motions / high pressure nights, fit into a pattern.
A segunda faixa, que dá nome ao álbum, já começa na quebradeira. O ritmo da música é daqueles bem estranhos, com acelerações e pausas frequentes. Mérito do baterista.
Assim como na primeira faixa, a seção de sintetizadores é densa e impressiona. E já no final da música, um solo descontrolado surge em cima de uma base que lembra um órgão de tubos. Aproveito o momento apoteótico para comentar que a letra da música reforça a brincadeira do título do álbum, deixando quase claro de que tipo de estimulação por dedos estamos tratando.
Warm Moving Bodies começa bem bizarra. E termina do mesmo jeito, como não podia deixar de ser. A canção é uma espécie de reflexão sobre as origens biológicas dos sentidos humanos. Parece chique falando assim, mas a letra passa a sensação de que quem fez estava bem chapado. O padrão ritmíco é bem groove e acompanha uma linha de sintetizador pesada.
Go começa com uns teclados sequenciadores entrelaçados. Parece uma continuação mais alegre e menos estranha da faixa anterior. O destaque do som são os recursos interpretativos dos vocais.
Se em Warm Moving Bodies parecia que tinha maconhada envolvida na questão, em Mission é certeza. O instrumental, bem pouco contido, ajuda os vocais na teatralização da música. Tem assovio, tem apito, tem cowbell. E pra acompanhar essa trilha sonora de festa infantil uma letra que deve ter feito todo sentido pra quem compôs durante o auge da loucura canábica. O som mal acaba e já é interropido pelas imitações de guitarra nervosas do próximo som.
Cannibals é daquelas em que dois compassos bastem pro ouvinte perceber que lá vem pedrada. A linha ritmíca lembra uma evocação tribal, enquanto a melódica rasga o ouvido com um instrumento de fundo cujo timbre não permite indentificar se trata-se de apenas um ou mais sintetizadores. A música acaba com um belíssimo solo no estilo mellotron. Hoping some rare man's blood is going to give them life / this is a generation of cannibals. Palmas.
Até aqui, evitei fazer a comparação; Mas, tanto o instrumental esquisito quanto a ironia cáustica da letra, tudo em Bug Boy lembra Devo. O primeiro álbum do Devo é de '78, logo, os dois grupos são praticamente concomitantes.
Tigh Fit é uma obra de arte. A canção é instrumental, muitíssimo sofisticada. A riqueza atraente de timbres do álbum se faz presente nessa canção com a emulação de xilofones e guitarras, lembrando a levada groove do mestre Roy Ayers.
Passion or Patterns vem na sequência, sem deixar a bola cair. A bateria começa colada na faixa anterior, criando uma atmosfera para a entrada dos sintetizadores, que adotam nessa música melodias mais limpas que no restante do álbum. A letra faz crítica às relações afetivas no contexto da contemporaneidade.
A música termina em fade out, seguida pelo paredão melódico de Town By The River. Esse pequeno instrumental faz função de interlúdio. Nessa altura do álbum, os ouvidos exigem mais dos sintetizadores, e ainda que a canção explore bem o instrumento, fica uma sensação de que é apenas aquecimento para faixa final. E é bem por aí mesmo.
A útlima música, Cowboy, é a mais longa do disco. É a conclusão de tudo que foi apresentado. A primeira parte da música lembra as atmosferas de Edgar Froese, extremamente plástica, com inserções cinematográficas. Podemos ouvir ventania, passos e outros ruídos. O clima perdura até que, de forma bastante espontânea, começa a segunda parte do instrumental, que descrevo como um carrossel de sequenciadores que sustenta com maestria os solos melódicos.
E lá se foram 32 minutos primorosos. Quem quiser os arquivos, é só chamar.
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Percepção Extrassensorial
Inaugurando o blog, falarei sobre um dos primeiros momentos "aqui tem groove!" da minha vida.
Mais ou menos uma década atrás eu estava procurando por um álbum na internet e fui parar num blog peculiar; Nele, o autor postava resenhas curtas de álbuns obscuros que ele comprava por $1,99 no bacião de alguma loja de departamentos americana.
Eu não sei o que eu estava procurando, mas, quando eu vi esse negão todo trabalhado no veludo cotelê vermelho, usando uma CAPA de seda lilás, um relógio de ouro estilo Faustão e sentado num trono envolto em fumaça, meu mundo caiu. Eu senti na hora que esse encontro estava predestinado a acontecer. E como se ainda faltasse alguma coisa, o nome desse herói é Richard "Popocorn" Wylie e o disco se chama Extrasensory Perception - isso mesmo, Percepção Extrasensorial. Eu não sei até hoje o que é a dita cuja, mas julgo ser exatamente o que aconteceu comigo quando eu vi a capa desse álbum. Foi amor à primeira vista, e de lá pra cá figura inabalável entre meus favoritos.
Popcorn Wylie
Nascido em Detroit em '39, esse querido esteve presente na fundação da Motown, gravadora que inventou a música. Tocou piano em alguns dos primeiros sucessos da empresa, mas saiu fora em '62 após desafeto com o dono. Foi pra Epic, lançou um EP que não emplacou. Desencanado de cantar, Wylie se concentrou na produção e composição de material para outros artistas. No anonimato, ele passou a década de 60 produzindo pérolas em sua própria gravadora.
No início dos anos 70, os primeiros trabalhos da Motown ganharam um hype, e o Popcorn Wylie que não é bobo nem nada aproveitou o frisson para lançar um disco próprio.
O álbum
Extrasensory Perception foi lançado em 1974 pela ABC Records. As oito canções do álbum são assinadas pelo Wylie em parceria com ninguém menos que Lamont Dozier - um dos monstros por trás dos maiores sucessos da Motown.
O som
A primeira canção, Singing About You and Me, começa com um riff funkeado bem trilha sonora de motel. A voz de Wylie já nos primeiros compassos mostra que ele tem drive, e a percussão vai deixando a atmosfera tensa.
Eis que com 1:17 de música entram os violinos, o coro e a linha de baixo. E aí tudo se transforma.
A cara de motel some e um groove envolvente toma conta. O Popcorn Wylie cantando arrepia do início ao fim do álbum, e essa primeira música já dá bem o tom.
Georgia's After Hours e How Did I Lose You são clássico R&B. Lost Time é um instrumental lindo, com direito até a solo de trompete piccolo. Tem uma levada meio Shaft e um piano mais pro final daqueles bem dramáticos, é de emocionar.
E aí vem ela. É a quinta faixa, é ESP. É literalmente uma experiência extrassensorial. Não sei quantas vezes já ouvi essa música, mas cada vez que escuto ela se torna maior, mais brilhante e mais mágica. É hipnótica. Os vocais profundos desarmam suas defesas enquanto o groove poderoso derrete seu cérebro. E lá pro final da música, quando você já está entregue, as pastoras do Popcorn Wylie vem te buscar e te levar para a groovelândia. As últimas três músicas são para relaxar após o baque.
O LP original de Extrasensory Perception é raríssimo, e um exemplar em bom estado custa uma soma vultuosa em moeda do Tio Sam. Quem se interessar pelo disco, eu posso compartilhar em mp3 o groove místico e paranormal do Popcorn Wylie.
Mais ou menos uma década atrás eu estava procurando por um álbum na internet e fui parar num blog peculiar; Nele, o autor postava resenhas curtas de álbuns obscuros que ele comprava por $1,99 no bacião de alguma loja de departamentos americana.
Eu não sei o que eu estava procurando, mas, quando eu vi esse negão todo trabalhado no veludo cotelê vermelho, usando uma CAPA de seda lilás, um relógio de ouro estilo Faustão e sentado num trono envolto em fumaça, meu mundo caiu. Eu senti na hora que esse encontro estava predestinado a acontecer. E como se ainda faltasse alguma coisa, o nome desse herói é Richard "Popocorn" Wylie e o disco se chama Extrasensory Perception - isso mesmo, Percepção Extrasensorial. Eu não sei até hoje o que é a dita cuja, mas julgo ser exatamente o que aconteceu comigo quando eu vi a capa desse álbum. Foi amor à primeira vista, e de lá pra cá figura inabalável entre meus favoritos.
Popcorn Wylie
Nascido em Detroit em '39, esse querido esteve presente na fundação da Motown, gravadora que inventou a música. Tocou piano em alguns dos primeiros sucessos da empresa, mas saiu fora em '62 após desafeto com o dono. Foi pra Epic, lançou um EP que não emplacou. Desencanado de cantar, Wylie se concentrou na produção e composição de material para outros artistas. No anonimato, ele passou a década de 60 produzindo pérolas em sua própria gravadora.
No início dos anos 70, os primeiros trabalhos da Motown ganharam um hype, e o Popcorn Wylie que não é bobo nem nada aproveitou o frisson para lançar um disco próprio.
O álbum
Extrasensory Perception foi lançado em 1974 pela ABC Records. As oito canções do álbum são assinadas pelo Wylie em parceria com ninguém menos que Lamont Dozier - um dos monstros por trás dos maiores sucessos da Motown.
O som
A primeira canção, Singing About You and Me, começa com um riff funkeado bem trilha sonora de motel. A voz de Wylie já nos primeiros compassos mostra que ele tem drive, e a percussão vai deixando a atmosfera tensa.
Eis que com 1:17 de música entram os violinos, o coro e a linha de baixo. E aí tudo se transforma.
A cara de motel some e um groove envolvente toma conta. O Popcorn Wylie cantando arrepia do início ao fim do álbum, e essa primeira música já dá bem o tom.
Georgia's After Hours e How Did I Lose You são clássico R&B. Lost Time é um instrumental lindo, com direito até a solo de trompete piccolo. Tem uma levada meio Shaft e um piano mais pro final daqueles bem dramáticos, é de emocionar.
E aí vem ela. É a quinta faixa, é ESP. É literalmente uma experiência extrassensorial. Não sei quantas vezes já ouvi essa música, mas cada vez que escuto ela se torna maior, mais brilhante e mais mágica. É hipnótica. Os vocais profundos desarmam suas defesas enquanto o groove poderoso derrete seu cérebro. E lá pro final da música, quando você já está entregue, as pastoras do Popcorn Wylie vem te buscar e te levar para a groovelândia. As últimas três músicas são para relaxar após o baque.
O LP original de Extrasensory Perception é raríssimo, e um exemplar em bom estado custa uma soma vultuosa em moeda do Tio Sam. Quem se interessar pelo disco, eu posso compartilhar em mp3 o groove místico e paranormal do Popcorn Wylie.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Mas o que é isso?
A música sempre me emocionou.
Diz minha mãe que minha primeira playlist era Morena de Angola, da Clara Nunes, repetindo sem parar no cd player do meu tio. Tempos depois, lá pelos meus oito anos, minha biblioteca incluía um Greatest Hits do Johnny Rivers, um disco promocional da Droga Raia de sucessos da MPB e o Acústico MTV da Cássia Eller, sendo esse último o primeiro cd que ganhei de presente. Primeiro e único, porque depois disso meu pai só me comprava discos se fossem os piratas que vendiam na feira. Desses eu me lembro bem do Falamansa e do Linkin Park, ambos de muito sucesso na época.
Nunca soube aproveitar a medida certa de nada; Desde muito cedo, sou afeito à compulsões. Diz a Débora que é coisa do signo, o fato é que sou.
Em algum momento, ainda criança, comecei a guardar as embalagens das caixas de bombons. Depois, recortava e guardava as ilustrações que eu gostava na revista Época que minha mãe assinava.
Mas eu só mergulhei no abismo da loucura colecionista quando meu pai contratou um serviço de internet ilimitada - não se tratava de banda larga, era uma internet discada, mas que eu podia usar à vontade. Iniciei minha vida na web com o download das músicas que eu gostava de ouvir na rádio. Anos mais tarde, conheci através do meu primo o iTunes, cuja interface permitia inserir a capa dos álbuns e outras informações. Para alguém sem recursos para comprar cds, a possibilidade de baixar ilegalmente e atribuir no iTunes o visual era um prato cheio. Nunca mais parei.
De uns anos pra cá, a internet diminuiu muito. Antigamente eu visitava centenas de blogs, e links para download eram mato. Hoje em dia, com certa frequência visito meia dúzia, sendo que dois já não fazem mais novas postagens. Na adolescência e vida adulta vieram os recursos, logo os arquivos mp3 foram preteridos por centenas de álbuns em mídia física.
Agora é que degringola
Certo dia ao me deparar com a interminável lista de artistas e álbuns no computador, me indaguei o que é que eu iria fazer com aquilo tudo.
O colecionismo insenato sobrepujou completamente a fruição.
Eu, auto-indulgente, tenho a seguinte teoria:
No futuro, seres extraterrestres ou extracorpóreos ou o caralho que for se encontrarão aqui em nosso planeta, muitíssimo curiosos para conhecer nossa cultura, já que nossa tecnologia não os interessará. E, como vocês podem imaginar, eles não vão ouvir música via streaming. Eles cagam e andam para internet. Eis que alguém (!!!), detentor de mídia física e digital que independe de wifi, apresentará para eles algumas das jóias audiovisuais já produzidas por aqui.
Caso eles venham só pra destruir tudo mesmo, alguém haverá de ser o disc jockey do nosso apocalipse. E, pelo bem de toda humanidade, melhor que seja eu do que o david guetta.
Esse blog é o espaço onde vou compartilhar com vocês, meus amigos, duas coisas: um pouco do que aprecio escutar e a responsabilidade de fazer as vezes com os aliens ou no bailão do fim do mundo.
Todo post virá acompanhado de texto. No futuro os jovens não saberão mais ler e escrever. Exagero meu, saber no sentido de conhecer o código língua escrita, eles saberão. O que quero dizer é que não terão mais intelecto e nem paciência para ler mais de 140 caracteres em sequência, que será o mais extenso gênero textual conhecido, legado do finado twitter.
Todo comentário aqui será mais-que-bem-vindo e quem quiser uma cópia digital do referido em cada post, é só me chamar.
Esse é o Groove onde tem e onde não tem também, porque não é só de swing que vive a música. Amém!
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