George me apresentou esse álbum em 2009 ou 2010, depois de uma discussão que tivemos sobre a transformação da estética punk que possibilitou o surgimento da vanguarda pós-punk. Esse assunto dá muito pano pra manga, mas pouca coisa tão boa de escutar quanto o som dos Units saiu desse miolo.
O Units é um grupo californiano formado em 1978. Apenas mais uma banda punk, como tantas outras na cena. A guinada aconteceu quando, em '79, começaram a inserir sintetizadores e suprimir os instrumentos de corda. Em 1980 lançaram seu único álbum de inéditas, Digital Stimulation, objeto de minha análise.
Tem groove aqui também. Um groove indecoroso e desajeitado, mas tem.
O riff de abertura de High Pressure Days sintetiza (literalmente) bem o que virá pela frente. Além da mistura de timbres, há uma espécie de sirene de ambulância ao fundo, muito oportuna. Vale mencionar que, diferentemente das odes ao mundo tecnológico que fazia o Kraftwerk, as letras de Digital Stimulation do início ao fim descrevem a tecnologia como ferramenta de alienação. Em High Pressure Days, a crítica recai sobre a impessoalidade das relações no cotidiano das grandes cidades.
A estrutura do som segue bem convencional, dando a impressão de uma estrutura em duas estrofes de verso e duas de refrão. Mas é bem quando se encerra o último high pressure do refrão que a coisa acontece: o andamento da música muda e uma sessão instrumental pesada de sintetizadores ataca sem dó o ouvinte. Antes da segunda parte, temos dentro desse novo andamento um pós-refrão temperado com linhas mistas de sequenciadores e teclado minimalista.
Particularmente, gosto muito do verso final - high pressure days, finding that our motions / high pressure nights, fit into a pattern.
A segunda faixa, que dá nome ao álbum, já começa na quebradeira. O ritmo da música é daqueles bem estranhos, com acelerações e pausas frequentes. Mérito do baterista.
Assim como na primeira faixa, a seção de sintetizadores é densa e impressiona. E já no final da música, um solo descontrolado surge em cima de uma base que lembra um órgão de tubos. Aproveito o momento apoteótico para comentar que a letra da música reforça a brincadeira do título do álbum, deixando quase claro de que tipo de estimulação por dedos estamos tratando.
Warm Moving Bodies começa bem bizarra. E termina do mesmo jeito, como não podia deixar de ser. A canção é uma espécie de reflexão sobre as origens biológicas dos sentidos humanos. Parece chique falando assim, mas a letra passa a sensação de que quem fez estava bem chapado. O padrão ritmíco é bem groove e acompanha uma linha de sintetizador pesada.
Go começa com uns teclados sequenciadores entrelaçados. Parece uma continuação mais alegre e menos estranha da faixa anterior. O destaque do som são os recursos interpretativos dos vocais.
Se em Warm Moving Bodies parecia que tinha maconhada envolvida na questão, em Mission é certeza. O instrumental, bem pouco contido, ajuda os vocais na teatralização da música. Tem assovio, tem apito, tem cowbell. E pra acompanhar essa trilha sonora de festa infantil uma letra que deve ter feito todo sentido pra quem compôs durante o auge da loucura canábica. O som mal acaba e já é interropido pelas imitações de guitarra nervosas do próximo som.
Cannibals é daquelas em que dois compassos bastem pro ouvinte perceber que lá vem pedrada. A linha ritmíca lembra uma evocação tribal, enquanto a melódica rasga o ouvido com um instrumento de fundo cujo timbre não permite indentificar se trata-se de apenas um ou mais sintetizadores. A música acaba com um belíssimo solo no estilo mellotron. Hoping some rare man's blood is going to give them life / this is a generation of cannibals. Palmas.
Até aqui, evitei fazer a comparação; Mas, tanto o instrumental esquisito quanto a ironia cáustica da letra, tudo em Bug Boy lembra Devo. O primeiro álbum do Devo é de '78, logo, os dois grupos são praticamente concomitantes.
Tigh Fit é uma obra de arte. A canção é instrumental, muitíssimo sofisticada. A riqueza atraente de timbres do álbum se faz presente nessa canção com a emulação de xilofones e guitarras, lembrando a levada groove do mestre Roy Ayers.
Passion or Patterns vem na sequência, sem deixar a bola cair. A bateria começa colada na faixa anterior, criando uma atmosfera para a entrada dos sintetizadores, que adotam nessa música melodias mais limpas que no restante do álbum. A letra faz crítica às relações afetivas no contexto da contemporaneidade.
A música termina em fade out, seguida pelo paredão melódico de Town By The River. Esse pequeno instrumental faz função de interlúdio. Nessa altura do álbum, os ouvidos exigem mais dos sintetizadores, e ainda que a canção explore bem o instrumento, fica uma sensação de que é apenas aquecimento para faixa final. E é bem por aí mesmo.
A útlima música, Cowboy, é a mais longa do disco. É a conclusão de tudo que foi apresentado. A primeira parte da música lembra as atmosferas de Edgar Froese, extremamente plástica, com inserções cinematográficas. Podemos ouvir ventania, passos e outros ruídos. O clima perdura até que, de forma bastante espontânea, começa a segunda parte do instrumental, que descrevo como um carrossel de sequenciadores que sustenta com maestria os solos melódicos.
E lá se foram 32 minutos primorosos. Quem quiser os arquivos, é só chamar.
